A Filtros Europa sobrou para a herdeira, numa supresa

Manuella Curti nunca foi preparada para assumir a empresa da família, a fabricante de filtros Europa. Em 2010, aos 26 anos, uma série de tragédias mudou sua história

Manuella Curti, presidente da fabricante de purificadores de água Europa

Manuella Curti, presidente da fabricante de purificadores de água Europa: Em 2012 a Europa cresceu 10%, chegou aos 195 milhões de reais de faturamento e começou a negociar a entrada de um sócio

São Paulo – Suceder o fundador de uma companhia familiar não é tarefa para amadores. Costuma exigir conhecimento profundo do negócio e jogo de cintura para manter o bom relacionamento com funcionários, clientes e fornecedores. Pois Manuella Curti, herdeira da fabricante de filtros de água Europa, viu a presidência da empresa cair em seu colo sem aviso prévio em 2010. Ela tinha 26 anos e uma recém-iniciada carreira de advogada quando enfrentou uma sucessão de tragédias em sua família.

Em dezembro de 2009, perdeu o irmão, Dácio Múcio de Souza Jr., assassinado durante uma briga em uma padaria paulistana. Com 29 anos, ele vinha sendo preparado para liderar a empresa. Seis meses mais tarde, Dácio Múcio de Souza, seu pai e fundador da Europa, morreu de câncer.

empresa da família, que até 2009 tinha piloto e copiloto,  perdeu ambos. Manuella se reuniu com sua mãe, sua irmã e o sócio da família, Antônio Carlos Camargo, para decidir o que fazer. Com mais de 50 anos, a mãe e o sócio não quiseram encarar a responsabilidade de liderar a empresa. Sua irmã, de 21 anos, era nova demais. Para Manuella, sobraram duas opções: vender a Europa ou assumir a função com que nunca havia sonhado. Optou pela segunda.

Profissionalização

Além da dificuldade inerente à tarefa de presidir uma empresa sem estar preparada, Manuella assumiu a Europa num momento particularmente complexo. A empresa foi fundada nos anos 80, quando só existiam filtros de barro no Brasil, e foi a primeira a lançar um purificador elétrico — que custava, claro, muito mais. Para convencer os consumidores de que o investimento valia a pena, o pai de Manuella abriu revendas exclusivas com funcionários treinados para bater à porta dos clientes.

No fim das contas, os 170 revendedores da Europa tinham o destino da empresa nas mãos: eles vendiam todos os filtros da companhia. Como hoje em dia os purificadores são comuns, é grande a pressão para que uma empresa como a Europa vá para o varejo.

O problema é que isso seria visto como uma traição pelos revendedores que cresceram com o fundador. Se Manuella não conquistasse a confiança dos revendedores, sua gestão teria vida curta. “Encontrei-me com todos”, diz. “Falei que mudaria a gestão da empresa, mas que não mexeria no canal de vendas.”

Acalmados os revendedores, Manuella começou a tirar poder de seu próprio cargo. Em 2011, criou um  conselho de administração, que reúne a mãe, a irmã, o sócio Camargo e o empresário Wilson Poit — dono de uma empresa de aluguel de geradores vendida em 2012 por 430 milhões de reais. Ele conheceu Manuella em um evento e, sensibilizado com sua história, topou o convite.

Está no conselho até hoje. “A empresa tinha um ótimo produto e atua­va em um mercado promissor. Mas precisava de uma estrutura mais profissional”, diz ele. Em 2012, a Europa contratou seis executivos, vindos de empresas como a fabricante de pneus Pirelli e o banco BTG Pactual, para organizar a produção, as finanças e o marketing. Neste ano, a empresa vai oferecer bônus por desempenho pela primeira vez.

Depois de avançar 5% ao ano entre 2009 e 2011, a Europa cresceu 10% no ano passado e chegou a um faturamento de 195 milhões de reais. Manter o ritmo vai dar trabalho. Durante décadas, a empresa aproveitou a falta de concorrentes de peso para vender filtros que custam até o dobro da média do mercado — o mais caro sai por 2?500 reais. Mas a concorrência cresceu, e hoje mais de 50 marcas disputam a atenção do consumidor — entre elas multinacionais como Electrolux, Unilever e Whirlpool.

A Europa se defendeu pegando carona na concorrência: investiu em uma linha para aluguel. Nesse modelo, o consumidor paga uma quantia mensal e ganha a manutenção do filtro. Para auxiliar na briga contra as múltis, a empresa contratou há um ano um assessor para negociar a entrada de um sócio financeiro — que ajude tanto a fazer investimentos quanto a administrar a empresa. A Europa enfrentará, em suma, os desafios comuns a qualquer empresa brasileira. Para Manuella, é uma notícia e tanto.

Fonte: Exame.com, 10/4/13, Lucas Amorim

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