Por Ana Rita Bittencourt Schlatter e Renata Bernhoeft

O maior e principal obstáculo à sobrevivência de uma empresa familiar é a própria família. Surpreso? Talvez fosse mais simples culpar o mercado, a concorrência ou, neste momento especialmente, a crise, sem precedentes em nossa história. Porém estudos confirmam que 67% das empresas que deixam de existir no mundo, o fazem por problemas internos. Questões muitas vezes invisíveis, que passam despercebidas à primeira vista, no entanto podem arruinar a perspectiva da perpetuação e da sucessão como um projeto estratégico.

Sucessão ou continuidade? A própria palavra, sucessão, nos desperta sentimentos conflitantes. Sensações que podem nos remeter à morte, à falta de alguém, à descontinuidade. Quando aquilo que desejamos é perpetuação do patrimônio, continuidade da família empresária e seus negócios, inspiração de vida! Para continuar é preciso evoluir. Lei da natureza, como Charles Darwin observou: a evolução da espécie. Não existe seqüência sem evolução, evolução pressupõe melhoria, superação, desenvolvimento contínuo – essência da continuidade.

Do ponto de vista do sucedido, ainda que seu maior desejo seja a continuidade do patrimônio e do legado, precisamos considerar que, no contexto emocional, e por vezes inconsciente, há também um receio de deixar de ser a principal referência de sucesso e realização na família. Deixar de dar a palavra final, passar a compartilhar, e de repente, ser questionado por pessoas mais novas, menos experientes e que não tiveram conquistas significativas em suas vidas. Como lidar com o fato de compartilhar o palco da continuidade com uma geração mais nova, seus próprios filhos, agregados, sobrinhos, ou descendentes de outros sócios? E se eles não me considerarem mais uma peça essencial? O receio da perda ou até da superação, ainda que não seja consciente, faz com que os fundadores, muitas vezes, tenham atitudes ambíguas. Por vezes observamos reuniões onde com extrema boa vontade os fundadores combinam de ser menos centralizadores, delegar, envolver, dar espaço e compartilhar. Mas por fim, fazem justo o contrário.

Da mesma forma, do lado dos sucessores, ou da nova geração, não é tão fácil quanto parece. Por um lado há imenso orgulho pelo patrimônio e legado construídos, a oportunidade de participar da continuidade, o desejo de preservação e o desafio de agregar valor ao patrimônio. De forma inconsciente, no entanto, podem existir diversos sentimentos que entram em conflito com as necessidades práticas. Como lidar com o peso de ser alguém que não construiu o que está herdando, uma história de sucessos que veio antes ou até a culpa de superar o próprio pai? Mais do que isso, como encarar o medo do fracasso? O processo de maturidade e conquistas da nova geração navega por diversas emoções, oscilam entre o receio de superar e o receio de não superar!

Para ampliar nossa percepção vale pensar em como se estabelecem e se desenvolvem as relações. Famílias empresárias são focadas em trabalho e resultados, aspectos racionais. Muitas vezes não se dedicaram ao desenvolvimento emocional. Explorar aspectos invisíveis envolve resgatar histórias antigas considerando os sentimentos e a visão de cada um. Também a comunicação na família, a influência materna e paterna, a qualidade da relação entre os irmãos e sua disposição para trabalhar em equipe. Temas que podem soar como distantes da gestão de empresas, porém nos sinalizam aspectos subjetivos que influenciam o processo. Forças inconscientes em constante movimento, emoções que, se não trabalhadas, podem comprometer definitivamente todo o processo de continuidade.

Damos a este processo o nome de Governança Invisível, que no início de sua implantação requer que aspectos como estes possam ser identificados, mapeados e trabalhados. É um nível da governança das famílias empresárias que exige a mesma dedicação e afinco que os aspectos tangíveis, estruturais ou contratuais.

Estudos comprovam que famílias, como proprietárias de empresas, aportam um compromisso de longo prazo na condução dos negócios, uma maior agilidade de resposta, uma cultura coesa e resultados superiores quando comparadas a grupos não familiares. Mas para isso, é necessário investir no desenvolvimento da própria família. Preparo intelectual, técnico e amadurecimento emocional. A chave é tornar o invisível, visível. O caminho é o autoconhecimento, só assim construiremos relações duradouras e saudáveis. Contando com a família, não como uma fraqueza, mas como uma das forças de nossas empresas que representam a sustentação da economia brasileira.