Por Rogério Faé Rodrigues e Lilian Shibata

As estatísticas sobre a mortalidade das empresas familiares no Brasil e no mundo não são nada animadoras. De forma geral, sabemos que 67% delas não ultrapassam a 2ª geração – número significativo considerando que 90% das empresas no Brasil são de origem familiar. Mas o que fizeram de tão diferente, aquelas poucas empresas que têm conseguido superar o desafio da longevidade? Uma resposta única e definitiva para esta questão não existe. É possível, após muitos anos de trabalho junto às empresas familiares brasileiras, encontrar uma boa pista: a capacidade de tornar-se uma família empresária.

É fácil reconhecer uma família empresária por sua postura e atitude frente ao desafio da longevidade. Para elas, perpetuar o patrimônio familiar significa, principalmente, cuidar para a próxima geração. E este “cuidar” tem um sentido mais amplo do que apenas administrar e manter o que já existe. Famílias empresárias perpetuam o patrimônio empreendendo, investindo no crescimento contínuo, diversificando e gerando cada vez mais valor para as próximas gerações.

Inúmeros são os aprendizados que as famílias empresárias têm para compartilhar. Para as empresas familiares que almejam a continuidade e ainda não sabem por onde começar, reunimos uma seleção de boas lições que podem servir de inspiração.

Cuidar do capital humano

O maior capital da empresa familiar é o capital humano. É por meio dele que se encaminham os processos de sucessão. É literalmente pelas mãos dos familiares que passa a responsabilidade de perpetuação do patrimônio. Para tanto, cada geração deve se preocupar com o preparo dos familiares para os diversos papéis existentes, mas principalmente, para o papel de sócio. Investir num programa de desenvolvimento da família empresária é fundamental para instalar um senso de coletividade. Um programa que possa contemplar todos os familiares, sem exceção. Que não faça as distinções comumente utilizadas pelas famílias como: homens e mulheres, gestores e não gestores, interessados e não interessados, preferidos e preteridos. Enfim, o programa de formação de sócios é uma tarefa contínua, sem fim, que deve manter-se vivo e aquecido para acolher a todas as gerações em seus diferentes estágios de vida e maturidade.

Criar e respeitar estruturas de governança

Nenhuma relação societária será capaz de se manter sem uma organização e estruturação mínimas. Principalmente a partir da 2ª geração, em que os herdeiros tornam-se sócios por herança, por imposição, sem terem a chance de se escolher. Uma estrutura de governança pressupõe a criação de instâncias claras, com lideranças e representantes legitimados e um processo decisório mais compartilhado. Ela facilita o exercício societário e impõe um modelo de comunicação mais claro e eficiente. Porém, de nada adianta a estrutura se não houver dedicação e disciplina de todos os envolvidos. A mudança de patamar e profissionalismo exigida pelo mercado não ocorrerá se seus membros continuarem desrespeitando as lideranças, os canais de comunicação e as normas de funcionamento acordadas.

Herança = patrimônio + legado

Além de todos os bens tangíveis que compõem o patrimônio de uma família, a herança contempla ainda uma parcela intangível muito importante. Chamamos de legado a história e os valores da família empresária que são transmitidos de geração para geração. É a soma de ambos que os herdeiros terão que administrar e cuidar para a próxima geração. O diferencial imbatível das empresas familiares é o vinculo afetivo e relacional. Nenhuma outra organização empresarial consegue incorporar em suas ações os mais fortes significados oriundos de sua história, propósito e valores, como a empresa familiar.

A capacidade de mobilização e união em prol da continuidade é que ajudam a manter alma empreendedora das famílias empresárias. Porém, mais importante do que conhecer bons exemplos de famílias empresárias ao redor do mundo, a empresa familiar deve se conscientizar de que tornar-se uma família empresária é hoje uma necessidade, e não mais uma escolha. E isso significa comportar-se como “gente grande”. Além é claro de adequar-se às exigências atuais do mercado e das legislações societária e empresarial, será fundamental também investir no preparo e nas relações dos herdeiros. Estes herdarão o desafio de perpetuar um legado que vai muito além do tangível. Um legado que exigirá muita habilidade interpessoal para lidar com emoções e sentimentos, riqueza e poder. O equilíbrio entre relações humanas e estruturas de negócio terá que ser continuamente balanceado.