Por Ana Rita Bittencourt Schlatter

Ao gerir os empreendimentos da família o herdeiro precisa de preparo técnico e emocional superior ao da média do mercado de executivos. As facilidades iniciais podem se transformar em verdadeiros desafios no decorrer da vida profissional e pessoal. Os riscos de rotulação também são altos.

Nem tudo é um mar de rosas para o herdeiro que pretenda seguir carreira como gestor de uma empresa familiar. Como todo profissional, ele tem desejos e expectativas que podem divergir do propósito do empreendimento ao qual está ligado pelo “umbigo”.

Em um primeiro momento, numa análise superficial, aparecem mais os benefícios que o ônus desta situação. De fato, o herdeiro está exposto a circunstâncias muito peculiares. Desde criança acompanha a empresa: escuta falar sobre seu mercado de atuação, sobre a forma de seu pai administrar e, quase por inércia, ingressa no mundo empresarial.

Na condição de herdeiro, logo no início de sua carreira na empresa da família, tem oportunidades que profissionais não familiares não têm. Pode participar de reuniões estratégicas, tem acesso a números e informações confidenciais, encampa projetos especiais, coisas que, normalmente, não são acessíveis a um administrador iniciante. Estes procedimentos tendem a acelerar o processo de aprendizado e desenvolvimento do jovem.

Em contrapartida, há alguns aspectos, não tão positivos, que nem sempre são percebidos em um primeiro momento. Um executivo-herdeiro tem que arcar com o peso do título de “filho do dono”. É inevitável que tenha seu estilo comparado ao do pai, na maioria das vezes considerado um modelo de sucesso. Esta base de comparação não é confortável pelo aspecto profissional e muito menos pelo pessoal.

Não é cogitada a hipótese de falhas profissionais para este executivo. Para quem teve as ditas “todas oportunidades” e herdou “um próspero empreendimento”, o mínimo que se espera é a repetição do sucesso ou mais. Acabam sendo esquecidas todas as mudanças ocorridas no mercado fora da empresa. Pouco importa novas conjunturas econômicas e outros fatores externos. Nada justifica, um declínio do “império familiar”.

Sem poder entrar em confronto com a administração anterior, leia-se a de seu pai, o herdeiro tem que encontrar condições para se inserir no contexto da empresa e buscar seu espaço. Não é difícil a ocorrência de desgastes nas relações pessoais. Afinal, qual o filho que não passa por períodos de “turbulência” com seus pais na rotina familiar? Imagine somar a esta predisposição os conflitos do convívio profissional diário.

A autoconfiança do herdeiro pode ficar abalada neste quadro. No trabalho que desenvolvo, freqüentemente encontro jovens que duvidam de seu próprio potencial e competência. Mesmo os reconhecidamente capazes e com carreiras consolidadas se questionam se são aceitos no comando apenas pelo fato de serem “filhos do dono”. Claro, ser filho do dono é uma situação que não pode ser negada e exige maturidade emocional ao lidar com ela. Mas isso não impede que o herdeiro seja efetivamente um ótimo profissional e seja reconhecido como tal pelos funcionários da empresa e pelo mercado.

Neste cenário, complexo e recheado de ingredientes emocionais, a preparação dos herdeiros para a função de gestão dos empreendimentos da família, por definição, passa por um caminho, no mínimo, diferente dos de outros trilhados por executivos não-familiares. O começo pode ser parecido.

A boa formação técnica é igual à exigida dos outros. Ele deve estudar para o mercado e não para a empresa da família. Este ponto na maioria das vezes é facilitado, pois não costuma haver limitações financeiras. Mas já há uma cobrança diferente: os fundadores não só não tiveram essas oportunidades, como também gostam de “relembrar” isso.

Em seguida, é recomendável que o executivo-herdeiro inicie sua carreira em empresas que não as da família. É o começo de um processo mais estruturado de formação, pois permite a incorporação de outras práticas de gestão, o contato com novas culturas organizacionais, valores e estilos de liderança diferentes. É a chance de consolidar conhecimentos técnicos, receber feedback sincero e amadurecer emocionalmente.

Um início de carreira fora de sua própria empresa também colabora para o desenvolvimento da autoconfiança deste jovem. Suas conquistas serão por mérito próprio. Ele terá chances de exercitar suas potencialidades, desenvolver habilidades e cometer erros. Tudo sem estar exposto às pressões diretas da empresa onde será um futuro acionista.

Esta experiência será ainda mais enriquecedora se acontecer em uma outra empresa familiar. O executivo-herdeiro entrará em contato com a dinâmica das relações familiares na empresa. Poderá observar, na prática, com isenção de laços de parentesco, o impacto e as particularidades desta situação. É uma oportunidade de aprendizado, com forte identificação, que o fortalecerá pelo resto de sua vida.