por Rogério Faé Rodrigues

A maioria das empresas familiares adia seus processos de sucessão e continuidade. E o preço pago por este adiamento tem sido alto demais. Em alguns casos tem custado a perda da harmonia familiar e do negócio da família. Em outros, todo o patrimônio construído ao longo de uma trajetória empreendedora de muita luta e suor.

A constatação deste adiamento foi confirmada pelos resultados da recente pesquisa realizada pela höft com líderes de 150 famílias empresárias brasileiras. Mais da metade delas – 54% – reconhece que sequer deu início ao planejamento da sucessão e continuidade. Para elas, o ditado popular “não deixe para depois o que se pode fazer hoje” tem sido insuficiente para fazê-las encarar o desafio da sucessão.

Mas se as conseqüências são tão trágicas, o que impede as famílias empresárias de colocarem o tema em pauta?

O tabu da morte

Na perspectiva dos fundadores, falar em sucessão é falar em morte. Esta é a verdade biológica mais difícil de ser enfrentada pelo ser humano. E por isso, infelizmente, os herdeiros são obrigados a lidar com o tema assim que a má notícia chega aos seus ouvidos. Julgar-se imune às dificuldades naturais da vida e do mundo dos negócios também é fatal. Quantas vezes ouvimos dos fundadores “Se um dia eu morrer…”. Ou então, ouvimos de herdeiros “Vai demorar a acontecer conosco”. Estes pensamentos paralisam. Prejudicam qualquer tipo de planejamento, sucessório ou empresarial.

O vínculo emocional

Outro fator crítico do adiamento da sucessão é o apego do fundador ao negócio. O vínculo emocional do criador com sua mais perfeita criação é mais forte do podemos imaginar. É mais forte até do que a objetividade e racionalidade exigidas no mundo dos negócios. Para um fundador, imaginar-se fora da empresa significa perder sua única fonte de realização. Mais do que isso, significa perder o espaço no qual ele exerceu durante a vida toda, o mais pleno poder. E o poder é orgásmico. Quem tem, ou já teve e o perdeu, sabe.

A falta de sucessor à altura

Mas digamos que o fundador aceite pensar no assunto. Que comece a encarar a realidade percebendo que, inevitavelmente, um dia terá passar o bastão. Aos cuidados de quem deixaria a coisa mais importante da minha vida? Fundadores que chegam neste estágio raramente se satisfazem com as alternativas levantadas. Quando pensa nos filhos, nem mesmo o mais dedicado deles estará pronto um dia. Sempre faltará experiência. Quando pensa num profissional não familiar, acredita que este não terá o mesmo compromisso, valores e respeito à história da família. Além disso, crê que o seu negócio é diferente dos outros. De difícil compreensão e domínio para quem não o conhece. Ou seja, esperar que o sucedido encontre seu próprio sucessor é uma missão quase impossível.

Um ato de coragem

Tudo bem, as razões do adiamento são compreensíveis. Mas há famílias empresárias preferem encarar um desconforto hoje, para evitar um desconforto maior depois. Estas famílias vão ao médico hoje, e não amanhã. Fazem sua ginástica todos os dias, e não uma vez por ano. São acima de tudo, famílias de coragem. Por que decidem lidar com o desafio hoje, e não amanhã.

E você? O que vai fazer hoje?