Falta de boas práticas na contratação de auditorias coloca em risco autonomia de entidades

Ernesto de Souza

Códigos de governança das cooperativas recomendam a rotatividade das auditorias externas a cada cinco anos, mas prática não é seguida por quase metade das entidades avaliadas pela FEA-RP

Uma pesquisa divulgada pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP/USP) mostrou que o setor de cooperativas agrícolas no Brasil pode não estar cumprindo algumas regras básicasde governança corporativa, principalmente no que se refere às empresas de auditoria contratadas pelas entidades.

De acordo com o estudo, as menores empresas de auditoria têm uma grande representatividade nos serviços para as cooperativas: em 2009, último ano pesquisado, esse número chegou a 83,64% das 55 cooperativas – enquanto as quatro grandes empresas que atuam no setor (KPMG, PWC, Deloitte ToucheTohmatsu, e BDO Trevisan) auditaramapenas 16,36% das cooperativas da amostra.

Acontece que existe uma fundamentação teórica que defende a importância do porte das empresas de auditoria dentro de uma cooperativa, para manter sua independência. Segundo esse embasamento, quando poucos clientesrepresentam grandes parcelas do faturamento de uma empresa, existe um risco nos processos de auditoria feitos por essa empresa. Além disso, é importante também deixar a auditoria externa separada da governança corporativa.

Outro fator recomendado pelos códigos de governança é a rotatividade das auditorias externas a cada cinco anos. No entanto, o estudo da FEA-RP mostrou que quase metade das cooperativas não seguem essa prática. Dentre as entidades que fizerem parte do Ranking Maiores e Melhores nos anos de 2005 até 2009, 47,62% não procederam a rotação de suas empresas de auditoria e permaneceram com as mesma empresa durante um período considerado longo pelos pesquisadores. Essa característica, em certas circunstâncias, pode comprometer a qualidade e o resultadoda auditoria, além de não contribuir para a transparência das contas das cooperativas para com os seus associados.

A pesquisa mostrou ainda que grande parte das empresas de auditoria não estão registradas junto à Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), órgão de representação do cooperativismo brasileiro. A Lei das Cooperativasdetermina que estas devem aprovar seu balanço geral e relatório do exercício nas Assembleias Gerais Ordinárias. As melhores práticas de governança corporativa indicam que esses balanços sejam auditados por auditorias independentes, credenciadas à entidade para que as características específicas de cada uma sejam conhecidas. No entanto, das 42 empresas que prestaram serviços em cooperativas, entre 2005 e 2009, apenas 21, constam na relação de credenciadas da OCB.

Editora Globo

Das 42 empresas que prestaram serviços em cooperativas entre 2005 e 2009, apenas 21 são credenciadas na OCB
fonte: Globo Rural On Line, 06/01/2013