Caros leitores,
Confiram a interessante matéria sobre sucessão nas grandes marcas de luxo publicada no Valor Economico em 13/09/2011, traduzido do Financial Times.

Nova geração reforça peso das famílias nas varejistas de luxo

Por Vanessa Friedman | Financial Times

Uma das mais assombrosas histórias de sucesso dos últimos cem anos foi a evolução do varejo de luxo, a partir de empresas familiares de pequena escala para um setor internacional que movimenta vários bilhões de dólares. Nesse processo, os sobrenomes dos homens e mulheres responsáveis por essa transformação – entre os quais Armani, Chanel, Dior, Givenchy, Lauren e Missoni – se tornaram mais conhecidos como nomes de marcas do que de pessoas. Mas num momento em que o setor enfrenta atualmente dificuldades para reconciliar sua herança artesanal com as ofertas públicas e demonstrações trimestrais de resultados da atualidade, é a relação pessoal, familiar, que reduz essa distância.

Com o envelhecimento dos fundadores das marcas – Giorgio Armani tem 77 anos, Ralph Lauren, 71 -, uma nova geração de filhos, filhas, sobrinhas e sobrinhos está sendo atraída para participar da empresa familiar. Independentemente de virem a assumir ou não o lugar de seus antecedentes, eles desempenharão, inquestionavelmente, um grande papel nessas empresas nos próximos anos, sem falar da influência que terão sobre as peças que chegarâo às prateleiras das lojas. Seja qual for seu título oficial, eles são, em termos não oficiais, o fio de ligação e de continuidade entre o passado e o futuro.

Esse não é um fenômeno novo. Em 1992, depois da morte de Emilio Pucci, sua filha Laudomia assumiu a grife fundada por ele e, apesar de vender a marca para a LVMH, oito anos depois, ficou na Pucci como vice-presidente do conselho de administração e diretora de imagem. Ermenegildo Zegna fundou sua marca de roupas masculinas de mesmo nome em 1910; hoje a empresa é administrada por seu neto Gildo. Veronica Etro cria roupas femininas para a Etro, a empresa fundada por seus pais em 1968; as filhas mais novas de Carolina Herrera, Carolina Jr e Patricia, são assessoras da empresa de mesmo nome controlada por sua mãe. Eliza Bolen, enteada de Oscar de la Renta, é diretora de licenciamento da ODLR, e seu marido Alex é seu CEO; e François-Henri Pinault assumiu a Artemis, a mantenedora da PPR, concorrente da LVMH, depois que seu pai, François, se aposentou, em 2003.

O que chama a atenção na nova geração de herdeiros é que, diante da industrialização, em vez de perderem importância, esses laços de família e a convicção de que existe valor no que a pessoa aprende à mesa do jantar, ao longo de sua criação, estão se tornando fatores cada vez mais decisivos. Atualmente, mesmo filhos que outrora afirmaram não ter interesse em seguir os passos dos pais se tornaram parte dessa tendência. É significativo que, independentemente da geração a que pertencem ou de seu estado civil, a maioria dos membros da família que administra a empresa esteja usando o nome da marca como seu próprio nome.

Quem são eles? Num momento em que se inicia esta temporada de um mês de desfiles de moda, há um conjunto dos nomes da próxima geração dos artigos de luxo que é bom conhecer. Embora não seja completo, o grupo inclui os nomes que devem ser verdadeiramente relevantes na tomada de decisões dos próximos anos. Eles poderão nunca chegar a aparecer no fim do desfile, mas, em algum lugar dos bastidores, estarão no comando da situação.

Roberta Armani, 41, diretora de relações públicas e de relações com VIPs da Giorgio Armani, é sobrinha de Armani, filha de seu irmão mais velho Sergio. Embora tenha trabalhado com seu tio por mais de 20 anos, tornou-se uma figura pública há apenas cinco anos. Desde então, desempenhou papel de crescente visibilidade na empresa – sentando-se entre as celebridades na primeira fila de todos os desfiles de moda, em viagem com o tio, ou recebendo um prêmio em seu nome. Ela foi a responsável pela articulação da mais recente investida da casa: vestir Lady Gaga para os Grammys do ano passado – numa energética peça da era espacial que dava a impressão de que um cometa diamante estaria em órbita em torno do corpo da cantora – e para seu tour de 2011, uma jogada de mestre em fazer com que o clássico selo italiano parecesse descolado e moderno.

Mais descontraída e expansiva do que seu tio, ela está tornando-se uma nova versão da Armani – menos sóbria, mais chamativa – e, ao que tudo indica, será a responsável por conduzir a imagem da Armani no século XXI sem abrir mão de seus fortes vínculos com Hollywood. Foi Roberta, por exemplo, que ajudou a organizar o casamento de Tom Cruise e Katie Holmes, em 2006, e agora não há nenhum desfile de moda que não conte com a presença da sra. Cruise.

Silvana Armani, 55, é diretora de criação da Emporio Armani e membro do conselho de administração da Giorgio Armani. Irmã mais velha de Roberta, Silvana trabalhou nos bastidores, em criação, por vários anos, em treinamento com seu tio. Ela é o único membro da família atualmente envolvido na criação (uma prima, Andrea Camerana, é diretora não-executiva). Silvana é diretora de criação de roupas femininas da Emporio Armani, a linha mais nova, de preços mais baixos mas forte geradora de lucros desde seu lançamento, em 2001. Estão entre suas responsabilidades atuais a criação de roupas femininas para todas as marcas da Armani, entre as quais a Privé e a Mainline, o que a posiciona para assumir o comando da criação no caso de aposentadoria do mestre – embora ele não tenha dado o menor sinal de que deseja se retirar e ainda não tenha nomeado um sucessor oficial.

Antoine Arnault, 34, principal executivo da Berluti e membro do conselho de administração da LVMH, é o segundo dos filhos de Bernard Arnault com sua primeira mulher, Ann Dewavrin (Bernard também tem três garotos mais novos com sua atual esposa, Helene Mercier), graduou-se na faculdade francesa de administração de empresas Insead e fundou a Domainoo.com, uma empresa de registros de domínios na internet, antes de ingressar na Louis Vuitton, em 2002. Ele passou oito anos na marca, no coração do império LVMH, mais recentemente como diretor de comunicações, onde foi responsável pela campanha de publicidade dos “valores essenciais”, a tão decantada afirmação da linha clássica da LV que atraiu nomes como Mikhail Gorbachev e Bono para posarem para a marca.

Bernard Arnault, que iniciou sua vida profissional na construtora de seu pai, é notoriamente dinástico e conhecido por transferir executivos de uma marca para a outra: a iniciativa de Antoine, no ano passado, de se tornar o principal executivo da marca de sapatos de luxo Berluti é um passo significativo em sua formação. A Berluti, a marca tida como a menina dos olhos de Bernard, vem sendo encarada como a “joia oculta” da empresa, e Antoine está encarregado de fazê-la resplandecer na esfera pública. Se conseguir, estará, inequivocamente, bem-posicionado para assumir um cargo de primeiro escalão no grupo, principalmente pelo fato de ser um dos poucos participantes do grupo que transitam com facilidade na internet, uma área que, como seu pai sabe, vai se tornar cada vez mais importante no futuro. Tida como “o mais sério” dos filhos mais velhos de Bernard Arnault, Delphine Arnault, 36, atuou dois anos como consultora na McKinsey antes de ingressar na empresa do pai, em 2000, onde trabalhou com John Galliano em sua marca de mesmo nome. Atualmente, é vice-diretora-geral da Dior Couture, membro do comitê executivo e do conselho de administração da Emilio Pucci e da Loewe.

Galliano fez o vestido que ela usou em seu casamento, em 2005, com o herdeiro italiano do setor de vinicultura Alessandro Vallarino Gancia. Embora ela tenha assumido um lugar de menor destaque público em relação a seu irmão mais novo Antoine, Delphine está desempenhando papel cada vez mais importante na Dior, a marca mais cara ao coração de seu pai: foi sua primeira aquisição no setor de luxo, e formou a pedra angular do império LVMH. Ela ajudou a atrair os estilistas Stuart Vevers, para a Loewe, e Peter Dundas, para a Emilio Pucci. Além disso, terá um papel fundamental na decisão sobre o nome que substituirá Galliano na Dior.

A sobrinha do estilista de calçados Manolo, Kristina, 37, vice-diretora-executiva da Manolo Blahnik, foi uma das impulsionadoras da recente expansão internacional da empresa de seu tio e de sua transformação em uma potência mundial na área de calçados. A partir de sua formação original como arquiteta (ela tinha seu próprio escritório, a Data Nature Associates, com seu ex-marido Nick Leith-Smith e ajudou a projetar as lojas da Manolo Blahnik), ela foi atraída para a empresa da família há dois anos.

Este ano passou a ser a diretora-executiva, cargo até então exercido por sua mãe, Evangelina. Embora não seja uma estilista de calçados, foi encarregada de supervisionar a criação dos protótipos de seu tio na Itália e é responsável por colaborar na área de sapatos para desfiles da Antonio Berardi, Richard Nicoll e Louise Goldin. Também foi a principal propulsora da coleção especial Manolo for Liberty.

Carolina Castiglioni, 30, diretora de projetos especiais da Marni.com, foi anteriormente deixada em segundo plano da Marni, a grife italiana avessa à publicidade fundada por seus pais Consuelo e Gianni em 1994 (a família de sua mãe administrava uma casa de peles que se constituiu na base da marca). Ela apenas foi apresentada ao mundo como um todo nesta temporada, como diretora de estratégia em internet, seis anos depois de ter lançado a loja eletrônica da marca, atualmente o maior ponto de venda mundial de varejo da Marni. Em decorrência disso, as responsabilidades de Carolina cresceram e ela foi nomeada uma “embaixadora” da marca, viajando para Sidney este ano para representar a Marni.

Envolvida também na criação da linha de conjuntos de joias, Carolina é um dos grandes exemplos da crescente tendência, entre as marcas de luxo, de lançar mão da geração mais jovem para encabeçar suas investidas no mundo da nova tecnologia, diversificações de marcas para outros campos e novos mercados.

James Ferragamo, 40, diretor de produtos femininos de couro de Salvatore Ferragamo, um dos filhos gêmeos de Ferruccio Ferragamo (presidente do conselho de administração do Grupo Ferragamo), James é atualmente o único membro de terceira geração da família envolvido na área de criação da grife erigida por seu avô, Salvatore. Um dos impulsionadores da nova investida da grife em acessórios femininos, ele ajudou a promover os recentes relançamentos dos sapatos baixos clássicos preferidos de Audrey Hepburn, Greta Garbo e outras estrelas mitológicas, reforçando a herança de Hollywood dominada pela marca.

Conhecido por sua aparência de astro de filmes de matinê e por sua desenvoltura cultural (estudou na Inglaterra e se formou em administração de empresas pela faculdade Stern da Universidade de Nova York), James ingressou na empresa da família em 1998. Ele aparece muitas vezes sentado ao lado de celebridades em desfiles de moda e é usado como a cara da marca. Atualmente a Ferragamo tem ações em bolsa (realizou sua tão aguardada oferta pública em junho), e seu status como símbolo de continuidade deverá se consolidar.

David Lauren, 40, o segundo dos três filhos de Ralph Lauren, é o que mais se parece fisicamente com seu pai. Atual vice-presidente-sênior de propaganda, marketing e comunicações corporativas da Polo Ralph Lauren, ele tentou não ingressar na empresa familiar – ao lançar uma revista para a geração X chamada “Swing” quando estudava na Universidade Duke nos Estados Unidos -,mas entrou na companhia para implementar a entrada on-line da Polo, em 2000.

David Lauren foi responsável pelas janelas de telas sensíveis ao toque nas lojas britânicas da empresa durante o Campeonato de Wimbledon em 2007 e como pelo evento “4D”, de novembro passado, que comemorou uma década on-line com um filme em 3D transmitido nas lojas de Nova York e Londres, acompanhado por jatos de perfume. O evento fechou ao tráfego algumas faixas da Madison Avenue e da Bond Street. David é visto em amplos círculos não como o que vai assumir o lugar do patriarca – ele não tem formação em criação e poderá nunca querer entrar numa passarela -, mas como a corporificação da transição da marca para o século 21.

Neta de Sonia Rykiel, Lola Rykiel, 25, é a filha do meio de Nathalie Rykiel, diretora artística da marca Sonia Rykiel, e Simon Burstein (filho da varejista britânica Joan Burstein e principal executivo da empresa de moda de sua família Brown’s). Diretora de relações públicas da marca nos Estados Unidos, Lola tem formação em dança moderna, mas ingressou na empresa da família cerca de um ano atrás. Sua mudança para os Estados Unidos, onde a Rykiel não te, um perfil nem de longe próximo ao que ostenta na Europa, sinaliza ao mesmo tempo uma investida orquestrada da marca no país e o próprio prestígio de Lola dentro da empresa; parte de sua missão é representar a marca nos EUA para uma nova geração. Embora ainda não tenha sido testada em criação, Lola diz que tem “uma noção interior do que é bom para a nossa marca”.

Por vários anos Sonia convocou Nathalie para acompanhá-la nos agradecimentos ao público do fim do desfile. Tudo indica que, dentro de uma década ou duas, a dupla da ponta da passarela será formada por Nathalie e Lola.

A criadora de acessórios da Missoni, Margherita Maccapani Missoni, 28, a terceira geração a se envolver na empresa fundada por seus avós Ottavio e Rosita, tentou, a exemplo de sua mãe, Angela, fazer outra coisa na vida – no caso de Margherita, ao estudar artes cênicas na Lee Strasberg em Nova York (Angela comandou sua própria linha de roupas por alguns anos).

No entanto, pouco mais de um ano atrás, Margherita voltou para casa e começou a trabalhar na empresa. Encarregada ao mesmo tempo de representar a marca como “embaixadora” – ela é a cara da atual Missoni na campanha da Target – e de criar acessórios, Margherita mostrou proficiência em entender a realidade da empresa moderna em manter uma ligação pessoal entre um membro da família e os consumidores, e a maneira pela qual os acessórios podem potencializar uma empresa. Frequentemente fotografada e apresentada nas páginas das revistas usando Missoni e acompanhada por amigas como Bianca Brandolini e Lauren Santo Domingo, ela é, talvez, a melhor propaganda que a família poderia ter criado para o estilo de vida que divulga. Do tipo, poder-se-ia até dizer, que tem de nascer, e não ser feito. (Tradução de Rachel Warszawski)